Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2008
"Pilar tirou do bolso a navalha e cortou a perneira da calça abaixo do bolso esquerdo. Jordan afastou o pano com as mãos e olhou para a coxa. Quinze centímetros abaixo da virilha uma saliência pontuda, roxa, lembrando um pequeno tumor, e quando tocou naquilo sentiu a fractura do osso da coxa de encontro à pele. A perna estendida formava um ângulo bizarro. Jordan olhou para Pilar. A expressão do seu rosto era a mesma do de Maria.
-Anda-disse-lhe ele.-Vai-te.
Pilar afastou-se de cabeça baixa, sem dizer palavra nem olhar para trás e Jordan pôde ver que os seus ombros estremeciam.
-Guapa-disse a Maria tomando-lhe as duas mãos.-Ouve. Não iremos a Madrid...
Então ela começou a chorar."

Ontem acabei de ler Por Quem os Sinos Dobram, de Ernest Hemingway. Gostei do livro, apesar de ser um bocadinho grande para tão pouco tempo narrativo (cerca de quatro dias na guerra civil de Espanha). A queixa prende-se mais ao facto de me fartar depressa do que estou a ler se levar muito tempo (dois ou três meses) porque, neste caso, os quatro dias passados na história são inteiramente preenchidos, isto é, são a acção em si mesma visto que narra a passagem do tempo desde a preparação até à execução de uma emboscada na montanha. Parece pouco tempo, mas Hemingway consegue transparecer a eternidade de um segundo quando se vive confinado a um território isolado numa guerrilha em que os perigos espreitam por todos os lados. Em quatro dias (e centenas de páginas), o Nobel faz o que de melhor sabe fazer: Mostra a humanidade que existe em cada pessoa, em especial as fraquezas. Demonstra que toda a gente é vulnerável e não há ninguém absolutamente forte ou invencível. Acho que nunca me vou esquecer de Pilar. Não é a protagonista mas tem um papel marcante em toda a história. É de arrepiar a descrição que faz aos outros do massacre que os republicanos aplicaram sobre os fascistas da mesma aldeia. Muito bem conseguido está também o capítulo em que o bando de El Sordo é dizimado, bem como todos os episódios de confronto entre as partes na guerra. Quando as armas não se viram contra o inimigo, é a construção psicológica das personagens que se trabalha e de modo, digo eu, quase perfeito. É fácil distinguir os sentimentos de uns pelos outros e como a desconfiança contamina as relações dentro da própria comunidade embora a ligação afectiva acabe sempre por vir ao de cima. A vida na guerra é tão frágil e tão pouco valiosa - ao ponto de ser sacrificada em prol da vitória - que matar o próximo torna-se fácil e ninguém pode dizer que está seguro esteja onde estiver enquanto houver guerra, essa é a grande verdade. E o final confirma isso mesmo, de forma ao mesmo tempo surpreendente e estúpida, como a própria guerra. Não gostei do fim, mas é mais porque não tem um happy end.


publicado por garçon às 22:44 | link do post | comentar | favorito

1 comentário:
De Elsa a 13 de Fevereiro de 2008 às 12:54
tenho este livro em casa para ler...
um dia ganho coragem :)


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