Terça-feira, 5 de Agosto de 2008
Solaris, na versão de 2002 realizada por Steven Soderbergh, é um filme de argumento, o que é por si só um grande desafio e um grande risco para um filme de ficção científica. Quanto a isso, podemos dizer que a aposta está ganha.
Sem a acção ou a dimensão ultra-fantástica próprias do género, Solaris cativa por dois motivos. São temas que inquietam a Humanidade desde sempre, daí o seu poder de atracção: a relação do Homem com o outro (e consigo mesmo) e a relação do Homem com o Universo e a Fé.
É o recorrente conjunto de pessoas enclausuradas num espaço limitado - uma missão espacial - que divergem sobre uma questão que envolve pessoas muito próximas de cada uma, tão próximas que despertam ódios ou amores antigos. Emoções fortes provocadas pela sua aparição, que não teria nada de especial não fosse o facto de estarem na Terra ou mortas ou...


Chris Kelvin (George Clooney), psiquiatra enviado especial para esclarecer o mistério, entra nesta viagem ao passado que se confunde com o presente e se deseja como futuro. Com a "ressurreição" da sua amada esposa, Rheya (Natascha McElhone), não só ficamos a conhecer pouco a pouco uma história de amor em bonitos flashbacks - que retratam o primeiro encontro, o primeiro reencontro, a primeira noite de amor, o primeiro jantar com amigos, a primeira grande zanga e a primeira fatal desilusão (para ambos, note-se) - como nos confrontamos com os dilemas do homem mortal eternamente apaixonado e do ser extra-terrestre, em tudo igual a Rheya menos na matéria, que se apaixona pelo homem que lhe dá vida através da memória e lamenta não ser humana. Pode dizer-se que é uma recriação da relação amorosa (im)possível que vemos em Blade Runner num contexto espacial diferente.
Aqui entram as tais questões, tão discretamente que nem nos custa nada durante o filme, só depois é que pensamos nelas. Questões sobre o destino das nossas vidas, o seu controlo ou a ilusão de ter opção. Eis uma das melhores cenas:

Chris Kelvin: I don't believe that we are predetermined to relive our past. I think that we can choose to do it differently. The day I left and you said that you wouldn't make it I didn't hear you because I was angry. This is my chance to undo that mistake. And I need you to help me.
Rheya Kelvin: But am I really Rheya?
Chris Kelvin: (silence) I don't know anymore. All I see is you. (while she cries over his lap after a great silence) All I see is you.

Outro diálogo interessante, entre Chris e o amigo Gibarian:

Gibarian: You think you're dreaming me.
Chris Kelvin: You're not Gibarian.
Gibarian: No? Who am I then?
Chris Kelvin: A puppet.
Gibarian: And you're not? Or maybe you're my puppet. But like all puppets you think you're actually human. It's the puppets dream, being human.


Resumindo e concluindo, é um filme sem ilusões de óptica, vulgo efeitos especiais, antes desafia o pensamento com um bom argumento, diálogos simples e incisivos (poucas palavras abrem feridas profundas), desempenhos impecáveis com destaque para os actores secundários e a bela Natascha McElhone, cenários envolventes (mais luminosos no exterior e frios no interior ironicamente; a luz/ausência de luz move-se autonomamente descobrindo e escondendo os rostos tal como em Blade Runner) e uma melodia de teclados mudos com ecos de melancolia.
Tudo junto, mais um final feliz (seria destino) resultante das opções que põem fim aos dilemas, faz deste Solaris de Soderbergh um filme que primeiro estranha-se e depois entranha-se. E isso é muito bom.


publicado por garçon às 18:40 | link do post | comentar | favorito

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