Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2008
Ontem fui à Cinemateca ver O Costa do Castelo, a célebre comédia portuguesa realizada em 1943 por Arthur Duarte e com as representações magníficas de António Silva e Maria Matos. Nunca tinha visto antes. Foi formidável e os oito espectadores na Sala Luís de Pina (incluindo eu, uma senhora de meia idade na última fila, um homem atrás de mim, um casal mais velho duas filas à minha frente, um casal novo de italianos junto à parede e uma jovem rapariga nas primeiras filas) encheram o espaço de autênticas e gostosas gargalhadas.
Eu adoro filmes antigos e é bom e ao mesmo tempo triste ver que Portugal teve outrora bom cinema, uma indústria mesmo, comparável ao que de melhor se fazia lá fora.
Os diálogos com Simplício Costa (António Silva) - mais conhecido por Costa do Castelo - e Mafalda da Silveira (Maria Matos) são hilariantes e revelam um talento enorme na criação de gags divertidíssimos, que hoje em dia ninguém iguala na ficção portuguesa. Por exemplo, quando o Costa diz a Daniel que tem que ir ali (apontando para uma casa de penhores), este pergunta-lhe se vai empenhar alguma coisa, ao que o primeiro responde: "Não! Vou desempenhar uma missão!" Excelente! Ou então, o cinismo delicioso da Tia Mafalda quando foi buscar Daniel/André ao bairro pobre: "Ora ainda bem que vim trazer a paz e a alegria a esta casa." Mas não são só as palavras que dão valor ao texto; é também a eloquência e o gesto com que são brilhantemente ditas por estes actores, como podem provar no video que se segue. Reparem também no non sense cómico desta conversa entre Gastão e D.Simão:
G: Aquilo do André, se Deus quiser, há-de passar.
S: Palavra que até perdi o apetite. Sabes o que eu almocei hoje? Um franguito corado, três fatias de carneiro e dois salmonetes.
G: Isso, pró tio, é prá cova de um dente!
S: Tou mesmo mesmo mesmo a cair de fraqueza. O que me ampara é um litro de leite que tomei há bocado. Imagina tu! Eu! A leite!
G: Cuidado com alguma anemia!

Também achei muito interessante aquele plano da Tia em contra-picado que, como é sabido, aumenta a imagem poderosa, austera e temível da personagem. E o pormenor, no final, de as portas dos aposentos, onde se realizava "a conferência dos dois, para alegria dos quatro", se abrirem sozinhas e lentamente para nos apresentarem (para os cineastas nos apresentarem) alternadamente os ângulos subjectivos dos dois no quarto e dos quatro na ante-câmara virados uns para os outros? Lindo! Isto é cinema!


publicado por garçon às 21:54 | link do post | comentar | favorito

1 comentário:
De Mr Fights a 10 de Janeiro de 2008 às 21:06
gosto tanto desse filme! :D


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