Sexta-feira, 23 de Novembro de 2007


Hoje vi A Estranha Em Mim, finalmente. Estava expectante em relação a este filme de Neil Jordan, por ele e pela actriz principal - Jodie Foster. É uma combinação perfeita. As minha expectativas foram superadas.
Neil Jordan revelou uma vez mais a mestria de colocar personagens numa constante luta contra os seus próprios valores vivendo situações extremas sempre guiadas pelo amor que move (e comove) tudo.
Foster confirmou-me que o seu papel de excelência é o de vítima frágil fazendo-se forte (basta recordar os melhores desempenhos, em Taxi Driver, Os Acusados, O Silêncio dos Inocentes, Nell e agora A Estranha Em Mim). Há qualquer coisa nela que puxa imediatamente para a compaixão e creio que ela conseguiria enganar toda a gente com o seu beicinho se quisesse. Os seus olhos de um azul imenso ajudam com certeza (que olhar tão aguado, tão magoado!).
Ela é capaz de fazer mil e uma expressões diferentes para o sofrimento que representa e nunca parece falso. É a actriz ideal para os realizadores de grandes planos, mais intimistas e interessados nos grandes conflitos que a alma tem (como é o caso e felicito os responsáveis pelo título português deste filme que é bem melhor do que The Brave One no que toca a exprimir essa guerra interior).



A história não é original (faz lembrar Irréversible - agora sempre que eu passar num túnel a pé de noite em vez de me lembrar de um filme já me lembrarei de dois, que bom!) mas tem um argumento que vale por tudo. Erica (Foster) é agredida juntamente com o noivo e sobrevive, ao passo que ele não. Confrontada com a inércia das autoridades e dominada pela estranha que descobriu em si, decide preencher o vazio deixado pelo namorado com um desejo de vingança. Mas a Erica original continua presente e as duas debatem-se sobre o bem e o mal. Erica nunca mais será a mesma depois do que aconteceu. Contudo, no fim reencontra a linha que separa aquelas duas forças no tremor da sua mão.
Há durante o filme vários momentos de tensão e citações que podem fazer a diferença em cada um dos espectadores: "Há muitas formas de morrer. É preciso é descobrir uma maneira de viver. Isso é que é difícil", "Tenho saudades do que eu era quando estava com ele", "Nobody saw me... and I saw nobody" ou "I want my dog back", entre muitas outras. O assalto do início dá-nos logo um soco no estômago para ficarmos preparados para o que vem a seguir em termos de tensão. Esta vai sendo mantida em cada nova cena de violência redentora de Erica (por cada uma, um soco no nosso estômago) até chegar ao climax final do vai fazer, não deve fazer (remete-me para o final do filme Seven).



O que cria a tensão neste filme não é a violência física, mas sim a violência psicológica que adivinhamos na mente de Erica contra ela própria, de tal forma que não a podemos julgar pelo que faz. Não é por acaso que se pode alegar distúrbios psicológicos para atenuar uma pena. É, digamos, mais compreensível o acto tresloucado por causa de algo que consensualmente enlouqueceria qualquer pessoa.
Além de tudo o que já referi, A Estranha Em Mim é um filme muito romântico, no sentido dos poetas, e isso vê-se na maneira como Erica e o detective Mercer - duas pessoas estranhas em si - desenvolvem uma relação de cumplicidade (que é isso senão amor) culminando no sacrifício de uma pela outra (mais uma vez, faço referência a um outro filme da minha eleição, aquele em que Hannibal Lecter corta a sua própria mão para não cortar a da sua amada Clarice - sublime!).
Sublime é também a sequência em que Erica é despida pelos médicos das urgências, logo após o ataque de que fora vítima, e pelo noivo numa cena amorosa passada, com a montagem alternada a fazer coincidir os mesmos gestos no seu seio, na sua barriga, na sua anca. Igual mas tão diferente. O mesmo corpo à vez cheio de amor e repleto de dor. Ora bonito, ora feio. Terrivelmente bem feito!
Em suma, como diz um cibernauta no IMDb, o filme é a história-tipo de vingança, mas com a actuação fascinante de Jodie e um bom realizador a fórmula torna-se interessante. Vale a pena ver.


publicado por garçon às 21:18 | link do post | comentar | favorito

mais sobre mim
links
Junho 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
12
13

14
15
16
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

29
30


posts recentes

Génova

Escrito num WC público

Jacqueline Du Pré Encanto...

Polícia emancipada/o

MpI - Eu sou o 63º subscr...

Bossa, Elis, 1965, Ecolog...

O Enterro de Sidney Beche...

As palavras são como as.....

Foi Jazz - Sidney Bechet

É Jazz - Joel Xavier "Sar...

arquivos

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

tags

acesso ao casamento

bem disposto

clássicos

coisas de contar

conta como podia ser

contra-buplicidade

dança

desafio

desliguem os telemóveis.

direitos assertivos

direitos humanos

é o drama

flores

hobbies

igualdade

jazz

jazz foi

jazz fresquinho

mundo engraçado

mundo feio

o virar da página

objectivamente (fotografia)

olha pra mim

pessoas

poesia

ponto de escuta

prosa

quem sabe...

sweet sadness

todas as tags

blogs SAPO
subscrever feeds