Quinta-feira, 27 de Novembro de 2008

           Querida Laura,

 
 
           Eu gostava de ter escrito esta carta há muito tempo atrás. Mas foi preciso deixar o tempo passar para que as palavras fizessem sentido. Queria-te dizer tanta coisa e, mesmo assim, não sei por onde começar. Tenho saudades tuas, Laura. E sinto uma grande mágoa por nunca ter estado contigo durante a tua vida. Perdoa-me. Mas acredita que tudo faria para que nada se tivesse passado como foi. Tanto que sofreste, minha amiga. Eu não posso sequer ousar imaginar a tua dor porque é ofensivo tentar compreender o incompreensível, o que nem a própria experiência permite saber. Se eu pudesse, se eu fosse dono dos dias e das noites, voltava atrás com este mundo sujo e levava-te para um lugar melhor, antes do cair da noite e do pesadelo. Ou então, ficava ao teu lado, não sei como, mas não deixava que te fizessem mal, a ti, tão bonita que tu eras. E tão pura. Podias até não compreender a minha atitude, Laura, mas pouco me importaria desde que não conhecesses nunca na pele a miséria da carne podre. Se um dia receasses por qualquer coisa, eu dava-te a mão prontamente e sossegava-te afastando os monstros da tua cabeça. E do teu espaço. Eu sei que os monstros existem, eu sei que não é nada inventado, eu sei que não é uma criancice, a gente vê-os porque eles existem, de facto, eles não saem das nossas cabeças, são eles que entram sem serem convidados, não foi assim, linda? Eles são mal-educados, imprevisíveis, horríveis, feios, assustadores, injustos e sobretudo maus. Ai, como eu era capaz de os matar a todos! Quando ele aparecesse para te ferir no teu mais íntimo, para te estragar a beleza da tua alma inspiradora do mais belo pensamento, eu juro que lhe espetava uma faca comprida no estômago e espetava-lha tantas vezes até que ele perdesse a memória. Infelizmente, é tarde demais – e dói-me tanto saber isso – pois, só me resta lamentar o que não fiz e chorar também. Choro de tristeza, por tudo o que é triste na tua história, e choro de alegria por saber que estás livre da tua prisão na terra. Como tu choraste ao veres abrirem-se para ti os portões da liberdade e riste-te como uma perdida que acaba de achar o bom caminho depois de um longo atalho perturbado. Ó Laura, quando me lembro de ti a chorar assim, como uma criança renascida, não me contenho e choro também e só não me rio contigo porque estou longe donde tu estás e queria estar perto, sem mais amanhãs. Espero pacientemente o dia em que, sem me dar conta de estar a entrar numa sala que conheço embora nunca a tenha pisado antes, ouça o teu riso. Seguirei o seu eco até te encontrar e dar-te-ei um longo abraço e seremos amigos para sempre e nunca mais choraremos.
 
            Deste que te adora,

 


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Sexta-feira, 21 de Novembro de 2008

Vergonha. Como exprimir a vergonha através do teclado de um piano? Pensou o rapaz. Como é que se pode tocar a vergonha? Não sentirá o tocador vergonha ao tocar? Não esconderão a cara os ouvintes ao ouvir o que toca? Não desafinará a tecla tocada com vergonha... Que lhe toquem assim?

E onde é que está a vergonha? A vergonha esconde-se debaixo da cama. O cão iria ao seu encontro, farejando, se não estivesse morto à beira da estrada a ver os engarrafamentos matinais. Uma pata no ar em sinal de protesto. A caravana continua a passar e nada.

A vergonha não é maior que a estupidez. Às vezes, ela própria se perde e grita "Estúpido!" A criança procura um esconderijo mas nenhum chega para esquecer. Mais tarde, muito mais tarde, encontra o refúgio perfeito atrás de uma melodia que lhe tapa a cara. Obrigado, pianista! Logo, encontramo-nos debaixo da cama?

Espero que sim e todos os que aqui estão. Menos o cão, cuja pata no ar se decompôs, resignado, e assim, triste, emagreceu, emagreceu e emagreceu até não restar mais nada senão uma mancha, um sinal não de protesto mas sim de perigo, a indicar ao trânsito a perda de dignidade.


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Quinta-feira, 20 de Novembro de 2008

"O meu único ressentimento contra a natureza devia-se a não poder virar a minha Lolita do avesso e colar uns lábios vorazes à sua jovem matriz, ao seu desconhecido coração, ao seu nacarado fígado, às uvas marinhas dos seus pulmões, aos seus graciosos rins."

 

Humbert Humbert in Lolita de Vladimir Nabokov

 

Deixa-me ver-te nú. Completamente despido. Despido do casaco perfumado com a tua água de colónia masculina. Primeiro, tira o cachecol enrolado à volta do pescoço e faz-me crescer água na boca com a tua maçã de Adão provocante. Sem o casaco, a malha também não faz falta. Desliga-te da camisa engelhada pelo trato que o teu corpo lhe deu. Puxa para fora de ti as pernas das calças e com os teus dentes tímidos para mim sorri. Despe-te de tudo. Não te esqueças das meias. Quero adorar os teus pés sagrados - abençoado é o chão que pisam! Não tens luvas? Ainda bem porque assim posso ver o desenho das tuas mãos milagrosas. Oh homem, que doente que eu estou! Descola-te a pele e leva o cabelo e as pestanas e as sobrancelhas e as tuas patilhas viris e todos os teus pêlos junto com o couro para o cesto da roupa suja. Descobre a tua côr natural. Desfia a carne que te tapa sem medo de apanhar frio. Estão 37º mas parece-me mais. Arranca as veias e as artérias e todas as vias congestionadas e pendura-as no cabide do quarto, no bengaleiro atrás da porta, nos toalheiros e no sítio dos panos da loiça, até não haver mais nada. Enrola os nervos num novelo e guarda-os no baú das recordações. Deixa-me ver-te nú. Sem nada. Só coração e fígado e pulmões e rins. Põe o cérebro no caixote do lixo orgânico. Não precisas dele. Sente apenas o bater da minha substância na tua. Cada concerto nosso faz com que o caos se complete e recria o mundo. De novo, os ossos encaixam e as medulas restam sossegadas. Deixemo-nos ficar assim para sempre, despojados de alma, desprovidos de matéria corrupta, limpos de natureza. Só o universo e a possibilidade de qualquer coisa.



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Sexta-feira, 14 de Novembro de 2008

O pianista pediu ao rapaz que trouxesse um sumo de laranja natural e uma tosta de frango sem tomate mas com o molho da casa. Era uma manhã luminosa e pacífica na praia e o ar parecia suspenso não fossem levres sopros espaçados como as ondas discretas da maré baixa. Antes de entrar no Jazz, o rapaz pensou em pedir-lhe que tocasse no piano algumas das suas sonatas favoritas. Ao voltar, encheu-se de coragem e, poisando o prato e o copo na mesa, perguntou. O extravagante pianista, no melhor sentido da palavra extravagante, olhou à sua volta e realçou que não havia público suficiente para o fazer mexer-se dali para dentro. Além do mais, não trocava um lugar ao Sol, literalmente, por um interior. Só se lhe trouxessem um piano ali mesmo é que ele faria o obséquio de deitar música fora. O rapaz disparou que ia logo tratar disso. Passados quinze minutos, já o pianista se sentia satisfeito e novamente de bem com o seu estômago, eis que vê aproximar-se um piano tal qual um caixão transportado por três pessoas de cada lado. Uma delas era o rapaz. As outras cinco eram amigos e amigas do rapaz, que lhes ligara com urgência para que viessem ajudá-lo. Recompensá-los-ia com um concerto imediato totalmente gratuito e num cenário invulgar. Com efeito, nenhum deles nunca antes tinha visto um instrumento daqueles com os pés enterrados na areia. O extravagante Sr. Pianista lançou um sorriso rendido e trocou de cadeira, para a do piano, embora lhe custasse teclar sentado noutra coisa que não fosse um banco acolchoado. Não prometia um desempenho excelente mas pagava o esforço do rapaz. Assim que as primeiras notas cortaram o som das ondas, foi como se o universo se tivesse dispersado todo dali para longe, ao contrário do efeito de um buraco negro. Dali, daquele sítio central, se partia e não se chegava. Minto. Uma gaivota chegou devagarinho, pairando, deu duas voltas ao recinto improvisado, aproximou-se, hesitou e subiu de novo, e, entre um dó e um fá, voltou à terra e pousou a certa distância das costas do artista. Depois, veio mais uma. A seguir outra. Mais duas, juntas. Até que muitas aves rodearam tudo e todos e cativaram o génio de um homem que pensava que podia desperdiçar o seu talento facilmente numa praia qualquer. Só que esta era uma praia encantada.


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Quinta-feira, 13 de Novembro de 2008

"A autobiografia da minha mulher era tão desprovida de interesse quanto o seria a sua autópsia."

 

Humbert Humbert in Lolita de Vladimir Nabokov

 

Seria engraçado se, numa autópsia, se reconhecessem as marcas de felicidade e de tristeza que alguém sentiu. Uma série de alegres sinais recompensaria a operação fria do médico legista. Por exemplo, um coração dilatado a roubar espaço aos pulmões indicaria a asfixia sentida pela existência de muito amor. Quanto mais brilhante fosse o fígado, mais risos teriam saído daquele corpo ainda a sorrir. Se os miolos estivessem moles e soltos, seria porque em vida souberam encontrar a serenidade de um espírito são. Mas se os pulmões se encontrassem raquíticos e secos, das suas ramificações teria sido chupada toda a água insuficiente para manter escorridos os olhos de desespero. Quanto mais mirradas as tripas se apresentassem, maior a privação a que teriam sido obrigadas. Os rins da côr do fel colocariam em horrível evidência a prolongada existência de orgasmos nulos. Então, o médico fecharia a carne com tudo lá dentro e voltaria para casa depois de um dia mau de trabalho, assim, a pensar que mais cedo ou mais tarde iria encontrar alguém feliz outra vez.



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Segunda-feira, 10 de Novembro de 2008

O Jazz na Praia encerra à segunda-feira para descanso do pessoal.

 

O pessoal agradece a sua compreensão.



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Domingo, 9 de Novembro de 2008

The hurt's relentless
The hurt of emptiness
The hurt of wanting
The hurt of going on
The hurt of missing
The hurt is killing me

Turn my head
Off
Forever
Turn it off
Forever
Off forever
Turn it off forever



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Sábado, 8 de Novembro de 2008

-Como foi que me reconheceu? -Você é a pessoa mais triste na sala.



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Sexta-feira, 7 de Novembro de 2008

O rapaz vai com o cotovelo apoiado na porta do carro e os nós dos dedos a apoiar a cabeça pesada ao mesmo tempo que belisca a bochecha esquerda com o polegar e o indicador. À frente, Monsanto. Uma fila de luzes brancas desce enquanto uma fila de luzes vermelhas sobe na mesma via serpenteando entre as matas. A noite envolve as viaturas que circulam lentamente como numa procissão sem espectadores nem participantes entusiasmados. À esquerda, o motor vai abaixo cada vez que pára. À frente, mesmo à frente, 21-EM-21. À direita, o conforto dos lares ilumina vagamente. Alguém tira qualquer coisa do microondas. No andar de baixo, umas costas viradas para o rapaz, um cabelo curto, de homem, imóvel. Que estará a fazer? Na janela ao lado, um abat-jour pinta o interior de amarelo torrado. O sofá vazio convida a entrar. Apeteceu ao rapaz esquecer tudo e partir. A pé. Rumo à ponte e ao outro lado. Mas teve medo de ir sozinho. De não ser compreendido. De ser maltratado. Então, sozinho ficou de pensamentos descaídos, olhos mortos, mão espalmada no pescoço e cotovelo de fora, recebendo a escuridão fresca, ouvindo Johann David Heinichen e mexendo o volante com a ponta de um dedo.


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Quinta-feira, 6 de Novembro de 2008

"As barras de proteína são outra alternativa [para suprir as suas necessidades diárias de proteína], com um pequeno senão. Muitas são feitas com químicos chamados álcoois açúcares ou polióis e muitos podem causar-lhe graves problemas de flatulência. Não deverá ter problemas se ingerir apenas uma barra por dia, mas considere-se avisado."

 

in Men's Health O Melhor Programa De Ginástica Sem Aparelhos

 

Agradeço aos amigos da Men's Health o aviso que fazem para se evitar o pequeno senão que são graves problemas de flatulência. Nem quero imaginar se o senão fosse grande. Seriam fezes líquidas sem controlo e vómitos prolongados juntamente com fortes dores de estômago e azia?



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