Domingo, 9 de Março de 2008

M - Matou! é o primeiro filme sonoro do alemão Fritz Lang. Estreou em 1931, três anos depois da introdução do som no cinema. No entanto, o filme não o usa ao desbarato para "vender" mais, pelo contrário, integra-o na trama como elemento central na execução e na descoberta de um criminoso.
A narrativa baseia-se na história verídica de um assassino de crianças em Dusseldorf. Com a subida do terror vivido pelos quatro milhões e meio de habitantes da cidade, polícias e marginais enveredam, cada grupo de maneira diferente, por uma procura intensiva de um mesmo homem. Este, primeiro, é apenas uma sombra e um assobio, o que joga a favor dos mendigos para o sucesso da captura. A polícia só VIA pistas.
É um filme que começa muito bem introduzindo logo o suspense necessário face a um fait-divers que oculta um homem tão ameaçador como misterioso. Depois, há uma longa incursão pelos trâmites da investigação policial bem como, alternadamente, pelos meios mobilizados nas quadrilhas com o mesmo objectivo: repor a normalidade. Durante esta exposição do processo, perde-se um bocado a emoção daquilo que interessa seguir, isto é, os passos do infanticida. Porém, vale a pena ficar atento até ao desenrolar da acção final, o da perseguição e julgamento à margem da lei (embora semelhante), sem dúvida o melhor de M.
João Bénard da Costa compara a justiça em M com a de Kafka em Processo. De facto, em ambos os casos, há uma acusação impulsiva movida por uma vontade acima de qualquer lei e julgada num ambiente claustrofóbico quer pelo próprio espaço em si quer pela opressão implacável dos acusadores. Tudo "fora" da realidade, incompreensível. A diferença, permita-me acrescentar, é que, se no Processo K é condenado sem sequer saber de que é acusado (assim como o leitor), em Matou! não há dúvidas sobre a culpa do réu. O que nunca se chega a descobrir é o que está por trás de tais actos, no mais insondável do ser humano para o que não há palavras e é despertado por uma melodia siflada. É nesse silêncio que a justiça encontra o seu maior obstáculo de sempre e o factor de erro ou incapacidade que tão má reputação lhe deixa aos olhos dos cidadãos sequiosos de segurança nas suas vidas.


Resta-me destacar o excelente trabalho de Peter Lorre no desempenho do homem acossado por si próprio, pela polícia e pela população. Vemos nos seus olhos o terror que o atormenta, terror que advém mais da tortura da sua alma do que da iminência de um castigo, de tal forma que somos levados quase sem darmos conta a considerá-lo uma vítima. Como? Acho que é porque todos reconhecemos que temos uma "voz" a querer comandar-nos e admitimos o difícil que é às vezes ignorá-la. É assim que o "advogado de defesa" o considera ilibado por não se lhe poder atribuir responsabilidade no acto do crime, visto que é doente, enquanto todos os outros o querem matar. Podia começar depois um excelente debate sobre a pena de morte mas o filme fica-se por aqui. Presta-se apenas a lançar o mote e alguns tópicos para uma discussão extra-cinematográfica.
A mãe de uma das meninas assassinadas encerra M dizendo que não é um julgamento legal que lhe traz a filha de volta. Cá para mim, termino esta posta frisando que outra morte também não.


publicado por garçon às 00:15 | link do post | comentar | favorito

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