Sexta-feira, 29 de Fevereiro de 2008
Nas ante-estreias a que vou convidado pelos meus amigos Hugo e Luís, nunca sei nada sobre os filmes propostos. Desilusão não apanho de certeza pois que as expectativas antes são zero. Por outro lado, não me lembro de alguma vez ter saído aborrecido. E, nas melhores das vezes, fiquei mesmo de alma lavada. Foi assim há alguns meses com Les Chansons d'Amour, por exemplo. E, esta semana, com Caramel, a primeira longa-metragem da libanesa Nadine Labaki, que veio a Lisboa apresentá-la.
Caramel é uma comédia tão ligeira como profunda e, por isso, eu não a consigo meter no mesmo saco das comédias ditas românticas. Não se trata de tirar o mérito a estas mas eu prefiro aquelas que revelam alguém atrás de uma câmara, alguém que brinca com o mundo feio que temos e procura transmitir o optimismo que sente através da beleza do seu olhar/filmar.


Caramel conta a história de cinco mulheres de Beirute (cidade à qual a realizadora - na fotografia em cima - dedica o filme) que vivem num círculo fechado cujo centro é um salão de cabeleireiro - si Belle - onde trabalham ou cuidam da aparência. Depois, cada uma tem o seu drama ou história, que vamos descobrindo ou apenas inferindo (pois, Nadine não nos dá tudo de bandeja), e assistimos à amizade inquestionável que as une em todos os momentos. É chato fazer comparações, mas é inevitável, e é perfeitamente plausível pensar nas Donas de Casa Desesperadas.
Só que as semelhanças com a série norte-americana ficam-se mesmo pelas linhas gerais já que, ao desenvolver cada uma das personagens, Caramel tem diferenças que são atribuídas à cultura em que se baseia. É isto o que torna Caramel mais interessante. Mesmo assim, o ambiente e as próprias personagens têm mais de europeu do que de libanês, fazendo-me até lembrar (mais uma associação) os filmes de Pedro Almodóvar, na cor, nos cenários, nos gags, na sensibilidade e na caracterização estilizada de mulheres. A figura que Nadine Labaki construiu para si mesma (a realizadora é simultaneamente uma das actrizes do elenco) lembra-me a Raimunda da capa do Volver. Um título referencial para Caramel podia ser Donas de um Cabeleireiro à Beira de um Ataque de Desespero...



Agora, algumas curiosidades sobre o filme que Labaki teve a simpatia de partilhar connosco: Todo o elenco de Caramel, excepto o actor que faz de polícia, foi pescado fora do meio artístico, ou seja, nenhuma dessas pessoas representou antes ou se preparava para tal. A realizadora levou um ano a procurar as pessoas certas, nas ruas, nos cafés ou através de anúncios, e escolheu-as essencialmente por gostar delas como pessoas. A banda sonora original (muito bonita, melodiosa e tocante) é da autoria do marido da realizadora, Khaled Mouzannar, também presente na ante-estreia. Caramel foi aplaudido durante quinze minutos após a sua projecção no Festival de Cannes, foi um êxito de bilheteira no seu país e já tem distribuição assegurada em cerca de cinquenta países, incluindo a Europa.
Nadine não acredita que alguma vez faça um filme em que retrate a guerra no Líbano. Eu acho muito bem, pois, de guerras militares está a Humanidade farta e é bom consumir com frequência o resultado de receitas simples e saborosas como a de Caramel para flanarmos um pouquinho noutro mundo.
Nadine Labaki já está a pensar noutra história mas não conseguia revelar nada sobre ela por ainda estar a germinar, sem forma. Eu fico a aguardar, pois, sem dúvida, é uma cineasta a seguir com atenção.


publicado por garçon às 18:10 | link do post | comentar | favorito

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