Sábado, 23 de Fevereiro de 2008
O Carlos ia a andar pela praia num dia assim esquisito em que fazia sol dum lado e estava nublado do outro. Conseguia ver a aglomeração de nuvens cinzentas no alto-mar enquanto sentia o calor suave dos raios luminosos, já bastante oblíquos, em ângulo agudo com o espelho de água à sua frente.
Caminhando para a beira d’água, apreciava com olhar fotográfico as lombas de areia que se alternavam até perder de vista, paralelamente à linha de rebentação. Era espantosa a calmaria que se vivia agora, depois das marés vivas da véspera. Carlos apenas via os cimos de areia pensando que bem podiam estar pessoas escondidas entre um e outro, naqueles vales efémeros.
Ao molhar os pés, constatou que não havia ninguém nas proximidades. Só ele e a ausência das gaivotas que por ali passaram sobre o tapete liso e ondulado. Podia ver que tinham sido muitas pela quantidade de marcas no chão e indagava ao céu onde estariam agora. Provavelmente em Lisboa, sobre o Chiado ou no Parque das Nações à espera que o temporal passasse. Talvez estivessem no Cais do Sodré a pôr a conversa em dia com os pombos da praça.
Sentindo os pés gelarem, Carlos afastou-se da água que lhe chegava e partia com lentos murmúrios e nenhuma espuma e sentiu desejo de se estender entre dois montes de praia e ficar ali resguardado como numa trincheira de batalha. Assim fez e deixou de ouvir a guerra da terra para dar ouvidos apenas à paz do oceano.
Quando se apoiou no cotovelo direito para se virar de bruços, sentiu algo pontiagudo a espetar-se contra o osso de tal forma que teve um reflexo rápido de dor e ficou com o braço dormente até ao ombro durante uns segundos. Primeiro olhou para o cotovelo para verificar os danos, inexistentes afinal, e só depois perscrutou a areia no sentido de conhecer a origem da picadela. Viu um bico metálico à tona da areia e logo escavou à volta, com precaução, desenterrando – qual icebergue fora d’água – um facalhão enorme, gigante mesmo, como nunca tinha visto antes. Mais parecia uma catana daquelas que via em documentários da National Geographic.
O cabo era trabalhado com relevos e pedras incrustadas bastante gastas e a lâmina apresentava manchas de ferrugem, líquenes e alguns bivalves minúsculos fossilizados e, de um dos lados, uma inscrição gravada em inglês: “Eternity is in your hands only if you can handle it”. “Weird!”, pensou Carlos e riu-se de ter pensado em inglês.
Olhou para o mar à espera de respostas. A superfície parecia estar agora completamente paralisada, como numa fotografia, irrealmente quieta e transparente de tal modo que podia ver-se tudo o que acontecia no fundo. Era como se um mundo submarino estivesse separado deste por um vidro novo e polido. Os peixes circulavam em cardumes, as medusas deixavam-se levar pela corrente invisível (o vento submarino) e as algas formavam alamedas e encruzilhadas e, nos canteiros que rodeavam, cresciam corais de todas as cores.
Em cima de duas sardinhas do tamanho de cachalotes, aproximou-se da praia um ser híbrido, metade pernas de homem – musculadas, peludas, bem definidas e torneadas até aos genitais volumosos – e metade cabeça e barriga de peixe – escamosas, luzidias, inexpressivas e de guelras quase fechadas para cortar melhor o caminho. Abriu-as ao máximo já perto do Carlos e ficou com elas abertas a encher-se de ar até recuperar o fôlego.
Carlos não podia deixar de olhar para os genitais do peixomem por serem absurdamente grandes para a espécie humana. O peixomem desmontou das sardinhas e estas voltaram ao mar mais depressa do que vieram. Deu três passos para a frente e Carlos, então sentado, ficou com os olhos tão perto dos genitais monstruosos que não os conseguia ver no seu todo, levando-o a olhar para cima para focar a vista naquela cabeça de peixe afunilada para o céu. Na posição em que estava (de lado, ao contrário da metade humana), mostrava só um canto da boca a babar-se e um olho mortiço e seco. Preparava-se para falar quando ouviu uma voz gargarejar.


publicado por garçon às 17:53 | link do post | comentar | favorito

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