Quinta-feira, 6 de Março de 2008

Depois de Caramel vindo de uma libanesa, Persepolis junta-se para provar duas coisas que são uma só: O cinema no feminino e no Médio Oriente dá cartas! O filme de animação co-realizado pela iraniana Marjane Satrapi (na fotografia) baseado na sua própria BD autobiográfica é o desenho animado mais bonito que já vi em toda a minha vida dentro do género adulto, dramático, humorístico e negro. O co-autor desta obra-prima, merecedora do Oscar de melhor filme de animação, é Vincent Paronnaud.
Marji conta a sua história de vida ao mesmo tempo que ilustra a História do seu país dado que ela viu uma revolução quando era pequena (1978 - queda do Xá), sobreviveu a uma guerra (nos anos 80 contra o Iraque) mas foi em Viena d'Áustria - exilada não por causa da guerra mas pela contestatação ao Governo fundamentalista do Irão - que quase morreu devido ao amor, nefasto sentimento pequeno-burguês.
Adorei o grafismo a preto e branco (com cor apenas a distinguir os breves momentos do presente), que permite jogar com a claridade/escuridão muito bem, a caracterização humana dos inocentes e a desumana dos perseguidores (com buracos no lugar dos olhos, faces preenchidas de preto, todos iguais). O desenho em si, o traço, é mesmo muito bonito, e o movimento contínuo interligando uma cena à outra prende a atenção.


Ao ver o filme, apercebi-me de como somos (ocidentais) aparentemente tão abertos aos outros mas ao mesmo tempo tão distantes e todos fúteis se compararmos a nossa vida, que constantemente dramatizamos, com a vida realmente dramática das pessoas em situações extremas, nomeadamente pela falta de Liberdade, que é o que mais me choca e comove, a mim que a defendo com unhas e dentes se for preciso e sem ela não sei viver. Se eu estivesse no lugar de Marjane, seria como ela. SOU como ela porque, embora nascido num país livre, não me sinto bem e tenho ganas de atacar esta repressão mais subtil que é a da sociedade civil.
Como a própria Marjane esclarece, em declarações ao site New York Entertainment, "tu podes estar completamente preso enquanto tecnicamente livre, e completamente livre numa jaula. Se fores como os Mormons, como é que eles são livres? Não são, e vivem num país livre. Está tudo na tua cabeça. E eu acho que sou livre de espírito porque me estou a borrifar para o que as pessoas pensam e dizem. Aí está o princípio da tua liberdade." A avó dela bem diz no filme que toda a gente tem sempre opção...
Vão ver este filme numa sala de cinema, já que é possível. Persepolis não passará no Irão, garante a autora. Mas todos os iranianos o verão porque, salienta, mal se lhes diz que não podem fazer algo, é tudo o que passam a querer fazer. Tal como em relação ao álcool. É assim que funciona.


publicado por garçon às 01:33 | link do post | comentar | favorito

3 comentários:
De Mr Fights a 9 de Março de 2008 às 13:21
é realmente um filme fantástico.

é a prova de como o cinema pode ser uma arte tão abrangente. adorei a forma como retrata de forma cómica uma vida muitas vezes amarga

já agora um beijo grande para ti :)


De rifa a 9 de Março de 2008 às 16:34
mr fights:
a capacidade de ridicularizar o infortúnio vem de uma força inexplicável. Marjane bem nos transmite, em Persepolis, a sua.
Só entre nós, quando eu era pequeno sonhava ser o Salvador do mundo. Logo nos primeiros minutos de Persepolis, assim que Marji criança diz querer ser profeta, identifiquei-me logo com ela e amei-a e ao filme.


De rifa a 9 de Março de 2008 às 16:35
mr fights:
beijos para ti também :)


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