Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2008
Ontem fui ver O Homem da Câmara de Filmar, um filme do russo Dziga Vertov que remonta ao longínquo ano de 1929. Este filme, apesar de mudo e a preto e branco, é muito interessante e moderno do ponto de vista formal e não só. Vertov e a sua equipa fizeram um manifesto contra o cinema ficção (contaminado por áreas alheias como a literatura, a música ou o teatro) para se dedicarem à exploração do cinema por si só, das suas especificidades formais e técnicas e nada mais. Foi um movimento de ruptura como os que apareceram na pintura e na literatura dos primeiros anos do século XX.
De facto, O Homem da Câmara de Filmar é "apenas" uma sucessão de imagens da vida de uma cidade, de um homem com uma câmara de filmar e de uma profissional da montagem. Mas é também o revelar do dispositivo de enunciação do discurso, ou seja, o cinema dentro do cinema, o espectador a ver-se a si próprio representado e a identificar as imagens do filme como tal. Assim, a técnica é exposta e revela a essência da sétima arte que é o movimento e a pós-produção. Sem encenação nem música nem enredo, tudo o resto é o mesmo que pode ver o olho humano, tão bem como a objectiva da câmara, e Vertov diz-nos isso ao sobrepôr a imagem de um olho na imagem da objectiva e ao mimar com a câmara o funcionamento de um olho. Não há lugar para a emoção senão aquela que é provocada pela técnica - que imprime um ritmo eficaz que desperta o mais cansado dos espectadores - ou, no limite, a que a realidade visual pode proporcionar dentro de cada um de nós, tal qual numa tela.
Além disso, o Homem da Câmara de Filmar é um compêndio da linguagem cinematográfica, com toda uma série de truques e técnicas próprios desde o fade até à sobreposição de imagens no mesmo plano passando pelo ralenti, pela inversão e pela tomada de pontos de vista originais, entre outros. São espectaculares os planos com os comboios, com os eléctricos, com as máquinas acompanhadas no movimento pelo "olho" do espectador - bem como com a água que desliza na represa. Também são muito interessantes as sequências de desportistas, de homens que abrem as pernas para passar por cima do homem da câmara de filmar que está deitado no chão (vêmo-lo depois), de corridas ao lado de carros e outros meios de transporte (lá está o homem da... em cima doutro carro), de dentro desses mesmos meios como do eléctrico que assusta as pessoas à frente e do elevador que deixa o homem da... em baixo.
Ocorreu-me pensar durante a sessão que, se Wim Wenders tivesse aplicado este ritmo ao seu filme cujo protagonista é um homem com uma câmara de filmar na cidade (semelhante ao de Vertov), Lisbon Story teria sido bem mais cativante.
Realço ainda a "coreografia" do tripé e da câmara, animados sem nada ou ninguém por perto a comandar - tal como o cinema-olho de Vertov e companhia não se deixa levar pelas outras artes. E, para acabar, gostei muito do plano em que o homem da... surge dentro de uma caneca à medida que esta se enche de cerveja. Naquela época, Vertov estava para o cinema como os futuristas estavam para a literatura ou os iconoclastas para a pintura.

O video que apresento a seguir é totalmente constituído por trechos de O Homem da Câmara de Filmar. No entanto, noto que há ligeiras alterações formais, ao nível dos tempos e da colagem, creio que com o intuito de combinar melhor com a música. Esta é do projecto The Cinematic Orchestra, que se inspirou no filme de Vertov para a compôr e deu-lhe o mesmo título: The Man with the Movie Camera.



publicado por garçon às 00:41 | link do post | comentar | favorito

3 comentários:
De Mr Fights a 25 de Janeiro de 2008 às 19:42
nunca tinha ouvido falar neste filme sequer...

mas o vídeo ontem valeu-me uma bela dor de cabeça... lol


De rifa a 25 de Janeiro de 2008 às 23:23
mr fights: dor de cabeça?... porquê??


De Mr Fights a 27 de Janeiro de 2008 às 14:05
não sei... mas que fiquei isso fiquei...


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