Sexta-feira, 14 de Março de 2008

Roma, Cidade Aberta é muita coisa ao mesmo tempo. É um filme de Roberto Rossellini de 1945. É a revelação de Anna Magnani como actriz. É uma obra-prima do cinema italiano do pós-guerra. É o primeiro filme da vaga neo-realista que se seguiu. É uma história contida mas profunda, por isso bela. Não é apenas uma história mas várias como quantas pessoas nos dá a conhecer. É uma mensagem de paz sem o dizer. É a realidade e para a realidade não são precisas palavras. Basta olhar.
O olhar sobre esta Roma é um olhar aberto, panorâmico como o dos romanos que se consideram livres até morrer mesmo que subjugados pelos alemães ocupantes. O olhar desta Roma choca com a perspectiva redutora dos que não fazem parte dela e estão só de passagem. Nesse olhar encontram-se (quase) todos os da cidade quer seja operário, engenheiro, padeiro, polícia ou padre (Aldo Fabrizi) quer seja comunista ou nacionalista. Todos se reflectem num mesmo espelho de alma que são os olhos de Pina (Anna Magnani).
Anna Magnani deu ao mundo uma das mortes mais pungentes que se viu no cinema (ver o último minuto do video em baixo). Com catorze planos breves, Rossellini conseguiu condensar toda a desgraça do mundo em Pina, uma mulher simples, fértil, temente a Deus e revoltada com Jesus que não vê o que se passa ali. A última imagem da sua morte é tal e qual a de Pietà de Michelangelo com a diferença de que mãe e filho desceram um nível esquematicamente se é que se pode dizer. É a mulher "santa" que jaz nos braços do "Senhor" trazendo no ventre a criança, chissà a salvação do mundo ou a última esperança numa cidade sitiada.
É curioso ver que as crianças de tenra idade que entram neste filme são as personagens mais promissoras no combate ao fascismo em termos de ânimo e vontade. Todos os adultos são figuras deprimidas tal como a economia e o estado do país. Daí poder inferir-se que a panorâmica final dos meninos caminhando em direcção a Roma (a cidade surgindo em fundo) simbolize a abertura de que reza o título incubada nas novas gerações, que são portadoras do desejo irreprimível de alargar os horizontes da Justiça e da Liberdade numa luta que não tem fim.



publicado por garçon às 22:49 | link do post | comentar | favorito

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