Sexta-feira, 14 de Novembro de 2008

O pianista pediu ao rapaz que trouxesse um sumo de laranja natural e uma tosta de frango sem tomate mas com o molho da casa. Era uma manhã luminosa e pacífica na praia e o ar parecia suspenso não fossem levres sopros espaçados como as ondas discretas da maré baixa. Antes de entrar no Jazz, o rapaz pensou em pedir-lhe que tocasse no piano algumas das suas sonatas favoritas. Ao voltar, encheu-se de coragem e, poisando o prato e o copo na mesa, perguntou. O extravagante pianista, no melhor sentido da palavra extravagante, olhou à sua volta e realçou que não havia público suficiente para o fazer mexer-se dali para dentro. Além do mais, não trocava um lugar ao Sol, literalmente, por um interior. Só se lhe trouxessem um piano ali mesmo é que ele faria o obséquio de deitar música fora. O rapaz disparou que ia logo tratar disso. Passados quinze minutos, já o pianista se sentia satisfeito e novamente de bem com o seu estômago, eis que vê aproximar-se um piano tal qual um caixão transportado por três pessoas de cada lado. Uma delas era o rapaz. As outras cinco eram amigos e amigas do rapaz, que lhes ligara com urgência para que viessem ajudá-lo. Recompensá-los-ia com um concerto imediato totalmente gratuito e num cenário invulgar. Com efeito, nenhum deles nunca antes tinha visto um instrumento daqueles com os pés enterrados na areia. O extravagante Sr. Pianista lançou um sorriso rendido e trocou de cadeira, para a do piano, embora lhe custasse teclar sentado noutra coisa que não fosse um banco acolchoado. Não prometia um desempenho excelente mas pagava o esforço do rapaz. Assim que as primeiras notas cortaram o som das ondas, foi como se o universo se tivesse dispersado todo dali para longe, ao contrário do efeito de um buraco negro. Dali, daquele sítio central, se partia e não se chegava. Minto. Uma gaivota chegou devagarinho, pairando, deu duas voltas ao recinto improvisado, aproximou-se, hesitou e subiu de novo, e, entre um dó e um fá, voltou à terra e pousou a certa distância das costas do artista. Depois, veio mais uma. A seguir outra. Mais duas, juntas. Até que muitas aves rodearam tudo e todos e cativaram o génio de um homem que pensava que podia desperdiçar o seu talento facilmente numa praia qualquer. Só que esta era uma praia encantada.


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publicado por garçon às 22:42 | link do post | comentar | favorito

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