Sábado, 14 de Março de 2009

Se eu deixasse uma criança morrer esquecida dentro de um carro durante três horas ou se eu fosse directa ou indirectamente culpado da morte de um bebé, não sei como viveria depois.

Tenho sobrinhos pequenos, o mais novo tem cinco meses e ainda não sonhei com a morte dele. Mas é muito provável que isso aconteça como acontece com as pessoas de quem gosto mais. São pequenos pesadelos que tenho em determinada fase de uma relação com alguém muito especial. A minha sobrinha mais velha tem seis anos e a fase dos sonhos maus com ela já passou. Deve ser porque já é suficientemente grande para se defender da irresponsabilidade dos adultos.

Os maus tratos e até a morte de bébés por causas perfeitamente evitáveis relembram que cuidar de crianças é um trabalho da maior importância e exige um zelo e uma vigilância permanentes. Como é que alguém se pode esquecer de um ser humano que é totalmente dependente dos outros?

A morte dos meus sobrinhos é um dos meus maiores medos seja de que maneira for. Diz-se que sonhar com a morte afasta-a. Era bom que assim fosse mas não sou supersticioso. Pelo contrário, a efemeridade da vida, da felicidade, dos sorrisos e do próprio tempo levam-me conscientemente a querer estar mais vezes com as pessoas que amo. Isso tem moldado a minha forma de pensar e as minhas decisões ultimamente.

 

A propósito de traumas com a morte de uma criança e das vidas para sempre destroçadas dentro de uma família que é como um puzzle irremediavelmente incompleto, o filme O Casamento de Rachel faz um retrato. Além de ser um excelente trabalho de realização de Jonathan Demme, conta como pode ser a vida depois da morte do ponto de vista de dentro da família. Claro que cada família é diferente e daria um filme diferente na mesma situação e, por isso, dou os parabéns à argumentista Jenny Lumet por ter chegado ao possível denominador comum destas pessoas frágeis, que se deixam partir facilmente a si mesmas de tempos a tempos e voltam a recompor-se por cima dos cacos espalhados pela casa. É uma resistência sem limites aquela que leva a gente a continuar.



publicado por garçon às 23:36 | link do post | comentar | favorito

mais sobre mim
links
Junho 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
12
13

14
15
16
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

29
30


posts recentes

Génova

Escrito num WC público

Jacqueline Du Pré Encanto...

Polícia emancipada/o

MpI - Eu sou o 63º subscr...

Bossa, Elis, 1965, Ecolog...

O Enterro de Sidney Beche...

As palavras são como as.....

Foi Jazz - Sidney Bechet

É Jazz - Joel Xavier "Sar...

arquivos

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

tags

acesso ao casamento

bem disposto

clássicos

coisas de contar

conta como podia ser

contra-buplicidade

dança

desafio

desliguem os telemóveis.

direitos assertivos

direitos humanos

é o drama

flores

hobbies

igualdade

jazz

jazz foi

jazz fresquinho

mundo engraçado

mundo feio

o virar da página

objectivamente (fotografia)

olha pra mim

pessoas

poesia

ponto de escuta

prosa

quem sabe...

sweet sadness

todas as tags

blogs SAPO
subscrever feeds