Segunda-feira, 3 de Dezembro de 2007
Hoje, levantei-me, lavei-me e fui à rua levantar dinheiro e comprar pão. Quando cheguei à caixa do Multibanco tinham acabado de chegar uma mulher de calças de fato de treino escuras e sapatos de vela com um miúdo atrás e, quase ao mesmo tempo, um homem de meia idade com barba de três dias e vestuário casual. Na realidade, chegámos todos quase em simultâneo, mas enquanto a mulher já fazia a operação na máquina, o homem colocou-se atrás junto à berma do passeio - apesar de este ser bem largo - não me restando outra possibilidade senão a de me pôr ao lado dele, um bocado afastado, na diagonal para a caixa.
Então, enquanto a mulher continuava de costas para nós, a criança - com aparência de ter entre dois a três anos, com um blusão e um boné azuis escuros - foi-se mexendo muito devagarinho e, voltando-se pouco a pouco, descobriu para nós o olho direito todo inchado, negro, quase todo fechado.
O outro homem e eu cruzámos olhares e tenho a certeza que pensámos o mesmo: Esta criança levou um valente murro. Não havia dúvida. O miúdo fixou-me, mas eu não tinha a certeza se ele me via, pois, mesmo com o olho esquerdo bom, parecia distante. E a minha mente estava mais ocupada a pensar a mil à hora noutra causa possível para aquilo, não querendo acreditar que tivesse mesmo sido uma surra.
A mulher desviou-se e acenou ao homem para vir. Ele foi e disse qualquer coisa amigável fazendo uma festa na cara da criança. A mulher respondeu com uma lamúria qualquer, só que eu não consegui ouvir nada. Continuou à espera não sei de quê, perto da caixa.
O homem fez o que tinha a fazer e, ao sair do sítio, voltou a dizer algo do género: "Tens aí um lindo trabalho" ironicamente para a criança. A mulher replicou qualquer coisa como: "Oh que trabalho!" laconicamente.
O homem, antes de partir de vez, ainda me olhou nos olhos novamente e houve de novo aquela comunicação silenciosa, triste, impotente, de precisar de ajuda mas não saber como, de adivinhar o que se passa mas não poder fazer nada, de procurar em alguém a mesma compreensão dos acontecimentos, 2+2=0. A mulher também me deu passagem para usar a caixa. Levantei o meu dinheiro e agradeci.
Um olho negro, fechado, inchado, irreconhecível e descaracterizado é das imagens mais feias que pode haver. Dificilmente sai da memória. Só espero que um vizinho de coração forte faça o que puder para pôr cobro ao infortúnio desta pobre criança. Ou então, o melhor era não termos razão, nem o homem do multibanco nem eu, e estarmos completamente enganados e o motivo do inchaço ser uma coisa tão absurda que nem nos passe pela cabeça e só possa ser verdade porque ninguém inventaria semelhante desculpa.


publicado por garçon às 13:10 | link do post | comentar | favorito

5 comentários:
De Mr Fights a 3 de Dezembro de 2007 às 21:04
:(


De Elsa a 4 de Dezembro de 2007 às 11:26
Esperemos que não tenhas razao...
A minha vizinha uma vez desmaiou em casa, ficando com uma valente nodoa negra no olho. Parecia que tinha levado um murro....
Pode ser que seja apenas isso...que pareça o que não é...


De rifa a 4 de Dezembro de 2007 às 12:05
Elsa: ainda bem que dizes isso, oh Elsa. Às vezes, a imaginação leva-nos longe de mais.
Beijinhos
PS- Mas tenho a certeza que o outro homem também desconfiou do mesmo que eu. E tu tens a certeza que foi mesmo isso que se passou com a tua vizinha?...


De Hugo Tom a 7 de Dezembro de 2007 às 12:09
As crianças às vezes lutam entre si e podem magoar-se. Também pode ter sido isso. Não vamos pensar logo no mal...


De rifa a 7 de Dezembro de 2007 às 12:17
hugo tom, tens razão. mas eu acho que se deve pensar logo no mal. isso significa estar alerta, porque o mal existe infelizmente. claro que muita coisa pode ter acontecido, e a angústia que senti foi a de não saber precisamente o quê nem vir a saber.


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