Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2008
No sábado passado fiz uma coisa que já não fazia há muito tempo, pelo menos dois anos. Comprei um maço de tabaco. De há uns dias para cá recomecei a fumar à noite socialmente. Quer dizer em jantares e nos copos pela madrugada adentro quando acompanhado por pessoas que fumavam a quem cravei os cigarros que fumei e o lume que mos acendeu. Por isso, alguém na mesa disse que eu fumava SG Crava depois de eu ter dito com toda a lata do mundo, de cigarro na mão, que não fumava.
Todavia, mais do que o acto social, o mais importante de fumar para mim, desde que meti pela primeira vez um cigarro na boca, foi o acto solitário. Aliás, logo da primeira vez fiz tudo sozinho. Saí de casa, fui até à marginal bem longe da casa dos meus pais, comprei um maço de tabaco SG Filtro numa máquina automática sem saber o que estava a comprar influenciado lembro-me lá eu pelo quê! Tinha 18 anos e sentia-me profundamente só. Via e continuo a ver hoje num cigarro uma companhia. De todos os cigarros que fumei na vida, os que mais apreciei foram sem dúvida os que fumei solitário, enquanto pensava na minha vida e olhava para o fumo sem esperar respostas e era isso que me confortava, era ter a certeza que o cigarro não me podia ajudar mas ter a certeza que estava lá quando eu quisesse e não se ia embora sem eu querer e se fosse voltava logo a seguir desde que me apetecesse e ele não voltava por me obedecer, ele simplesmente aparecia e não dizia nada, apenas me ouvia pensar e pronto. Não sei porquê, sempre vi algo de poético e de mais do que irreverente no acto de fumar.
No sábado passado, estava sozinho e solitário. Não tem nada a ver com afastamento de amigos. Pelo contrário, eles estão bem presentes. É um sentimento interior, que faz parte dos meus genes. De certeza que há um gene da solidão. Se os cientistas ainda não o descobriram, é porque ainda não se deram ao trabalho. Talvez um cientista solitário se lembre disso um dia quando estiver a fumar um cigarro sozinho ao luar a pensar nas suas experiências. De vez em quando este sentimento de abandono do mundo, de desadequação face à realidade assoma em mim e faz-me reflectir sobre todas as coisas que me influenciam, o rumo que estou a tomar e o grau de satisfação (ou não) que estou a obter com esse caminho.
Quando saí do meu trabalho, às dez horas da noite, fui directamente para o Agito, no Bairro Alto, um bar que é a minha cara e podia bem ser a minha segunda casa. É um sítio giro, cool, com muito boa onda, muito boa música e muito boa disposição onde, apesar de estar sozinho, me sinto menos só. Há uma ambiência descontraída, sem intenções de engate, sem avaliações flagrantes dos pés à cabeça para ver como estás vestido, sem grandes enchentes de pessoas pouco cuidadosas a passar de um lado para o outro da rua como acontece no 41. Para ser franco, nunca gostei muito de estar ali na rua apertado com todo o tipo de gente à volta, sempre a dar empurrões e a fazer uma feira enquanto sobem e descem a rua a falar aos gritos obrigando os locais a elevar o tom de voz numa espiral de ruído. Depois há também a parte da bicharada que ao mesmo tempo se expõe e afia as garras, pois, tanto pode ser caça como caçador. Além de ser por ser calmo, gosto do Agito porque tem um arco-íris colado atrás do balcão, o que significa que toda a gente é bem-vinda e o autocolante nem precisava de lá estar porque ninguém lhe liga mesmo nem está interessado na orientação sexual de quem quer que seja. É um sítio muito fixe, porreiro mesmo, sem stress e ainda tem sempre o jornal Público disponível para quem quiser ler.
Adoro o Agito e foi lá que perguntei a uma das miúdas que servem (acho-as muito bonitas e não são modelos de moda, para mim são modelos de autenticidade) onde é que podia comprar tabaco mais perto. Fui logo ao lado, ao B do Bairro, comprar SG Ventil, a minha marca favorita, digam o que disserem. Voltei ao Agito para pedir mais uma imperial e, desta vez, num copo de plástico para ir para a rua estrear o meu primeiro maço desde há mais de dois anos atrás. Ainda cravei lume mas que ninguém diga agora que eu fumo SG Crava. SG Ventil, se faz favor! Não é irónico que eu tenha dado este passo pouco depois de ter entrado uma lei em vigor que restringe o acto de fumar? Quando toda a gente que conheci a fumar, com quem fumei tantas vezes e que ainda fumam está a reduzir e a tentar deixar o tabaco? Uma amiga minha que era a maior viciada que eu conhecia à face da terra anunciou-me há coisa de uma semana que não fumava há mais de dois meses. Lembro-me perfeitamente do stress que ela tinha quando lhe faltava tabaco e da quantidade de cigarros que fumava em pouco tempo - e eram Marlboro 100%. Ela conseguiu! Bem, com pastilhas e pensos e sei lá mais o quê, ela tentou tudo (eu desconfio que a vontade ainda foi o que mais ajudou porque tenho um palpite que há aqui intenção de aumentar a família :)
Por outro lado, e é curioso, fiquei espantado quando soube, nesse mesmo sábado, que um amigo meu voltou a fumar. Eu nem sequer sabia que ele tinha fumado antes!
Moral da história: Não tem moral. Acho que devia sentir-me mal por ter feito o que fiz mas não sinto. Pelo contrário, estou muito bem disposto e descontraído em relação ao assunto e nem penso nisso. Nem vontade tenho de fumar. Nunca fui um fumador convicto. Como já disse, o cigarro é o meu companheiro das horas mortas, o meu confidente, o meu escape, o meu reencontro e mais nada. Aquece-me a alma quando ela está fria. Assim como a música que gosto de ouvir. A seguir estão três canções que me põem em cima e é possível que um dia as oiça no Agito. São de um grupo que deixou muitas saudades: James.



On a flat roof, there's a boy leaning against the wall of rain
Aerial held high, calling "come on thunder, come on thunder"


publicado por garçon às 21:39 | link do post | comentar | favorito

3 comentários:
De Mr Fights a 29 de Janeiro de 2008 às 22:39
Mas! Mas! Mas! agora que a lei permite finalmente lugares livres de fumo toda a gente anda a voltar a fumar????????

Não acho nada normal!

Grunf!


De ZEP a 30 de Janeiro de 2008 às 12:33
ainda servem refeições no Agito? Eu ía lá jantar regularmente até que um dia já estava sentado à mesa e disseram que tinhamos de ir embora que íam fechar. Acabei por jantar no Alfaia

Depois disso aquilo fechou uns tempos


De rifa a 31 de Janeiro de 2008 às 00:10
zep: sim, servem refeições.


Comentar post

mais sobre mim
links
Junho 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
12
13

14
15
16
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

29
30


posts recentes

Génova

Escrito num WC público

Jacqueline Du Pré Encanto...

Polícia emancipada/o

MpI - Eu sou o 63º subscr...

Bossa, Elis, 1965, Ecolog...

O Enterro de Sidney Beche...

As palavras são como as.....

Foi Jazz - Sidney Bechet

É Jazz - Joel Xavier "Sar...

arquivos

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

tags

acesso ao casamento

bem disposto

clássicos

coisas de contar

conta como podia ser

contra-buplicidade

dança

desafio

desliguem os telemóveis.

direitos assertivos

direitos humanos

é o drama

flores

hobbies

igualdade

jazz

jazz foi

jazz fresquinho

mundo engraçado

mundo feio

o virar da página

objectivamente (fotografia)

olha pra mim

pessoas

poesia

ponto de escuta

prosa

quem sabe...

sweet sadness

todas as tags

blogs SAPO
subscrever feeds