Quinta-feira, 8 de Novembro de 2007
Esta manhã saí de casa mais cedo do que queria por motivos de força maior (obras em casa, detesto!) mas até foi o melhor que fiz porque o dia na rua correu maravilhosamente bem. Foi mais um dia de Sol fantástico e Lisboa hoje estava mais bonita e fotogénica do que nunca. Apanhei o 738 até ao Jardim da Estrela e pus-me a caminhar sem destino. Andei por S.Bento, Mercês, Bairro Alto (gosto muito mais do Bairro Alto de dia), Santa Catarina e Chiado.
Percorri ruas escondidas debaixo da Rua de O Século e numa delas, a Rua Eduardo Coelho, descobri uma igreja estranhíssima como nunca tinha visto. Em vez de ter uma fachada imponente e uma escadaria para subir, era uma simples porta num edifício baixo e banal e uma identificação em cima (e se não fosse isso quem passasse não dava por ela). E o mais insólito é que em vez de se subir para entrar, descia-se por umas escadas interiores de pedra para uma espécie de cave. Depois tinha um hall bastante grande à esquerda com duas imagens na parede que dava para as duas casas mortuárias - um ambiente muito escuro, solitário e silencioso. À frente, havia um corredor, um género de ante-câmara da igreja, julguei eu, porque tinha uma porta ao fundo, que não ousei abrir. Ainda tentei ir ao pátio interior - à direita desse corredor - mas a porta estava trancada. Não entrei na outra porta porque não sabia exactamente o que era e ouvi sussurros lá dentro... Mas o que vi de mais bonito (se calhar, a única coisa realmente bonita ali) foi o painel de azulejos que cobria o TECTO(!) e cerca de metade das paredes a toda a volta. Os motivos eram religiosos, claro está, e estava muito bem conservado. Esta igreja é realmente muito diferente fisicamente. Será que também é assim espiritualmente? Duvido...

(acabei de fazer algumas pesquisas e parece-me que eu estava nas traseiras da grande Igreja de Jesus ou das Mercês, que fica pegado à Academia das Ciências; acho que amanhã vou confirmar isso)

O maior deslumbre tive quando cheguei ao miradouro de Santa Catarina (Adamastor), desta vez pelas ruas mais à direita. O Tejo brilhava tão fortemente que parecia ter cardumes à tona de água em constante frenesim por causa do Sol escaldante. Não resisti a sentar-me um pouco na esplanada para contemplar aquele espectáculo de luz e só pensava "porque é que eu não tenho uma máquina fotográfica aqui e agora comigo? Que desperdício de imagens, de claridade, de oportunidades únicas!"
Voltei em direcção à Calçada do Combro pela rua do costume e de repente fiquei perplexo ao ouvir uma gaita de amolador, como nos tempos da minha infância (tempos em que chovia mais e os meus pais pediam ao senhor do som bonito na rua para consertar os chapéus-de-chuva). E ele estava ali! For real! Montou a sua bicicleta cheia de tralha dos lados e atrás e lá foi a fazer-me companhia quase até aos armazéns do Chiado, sempre com aquela melodia curta, que já na Rua Garrett competiu com o flautista da esmola e o burburinho de gente animada.
Naquele momento, apeteceu-me agarrá-lo, fazer-lhe perguntas, o que fazia ali, porque fazia aquilo, se tinha clientes, quem eram, como é que trabalhava e desde quando. Onde é que ele esteve este tempo todo? Apeteceu-me tirar-lhe uma fotografia, no mínimo. E então, disse a mim mesmo: D'hoje não passa!

Andava há que tempos a sentir falta de uma máquina fotográfica para captar estes pequenos momentos mágicos da minha vida e do mundo. Mas mesmo há demasiado tempo. Perdi imensas oportunidades de fixar imagens que me fizeram feliz por um instante. Queria prolongar essa felicidade tão efémera por tempo indeterminado.
Então, fui directo à Fnac e comprei uma máquina compacta digital. Amanhã, desforro-me! Preparem-se para a festa da fotografia no Sai Sempre.


publicado por garçon às 02:08 | link do post | comentar | favorito

3 comentários:
De Luís V a 8 de Novembro de 2007 às 20:48
Explica-nos lá uma coisa: esta suosta igreja tinha altar? É que se não tinha, é porque provavelmente não era igreja... Eu desconfo que estavas na Casa Mortuária da Igreja que mencionaste.


De rifa a 9 de Novembro de 2007 às 00:53
Eu não cheguei a entrar na igreja porque não me atrevi a abrir a porta lá dentro depois das escadas. Mas já confirmei que é mesmo igreja o que está escrito na porta da rua por onde desci. Por outro lado, também confirmei que esta porta está na rua de trás da igreja que referi e que pude hoje ver de frente, ou seja, parece ser tudo no mesmo bloco de edifícios.


De Mr Fights a 11 de Novembro de 2007 às 21:55
uma das coisas que tenho mais saudade (por estar a trabalhar durante o dia) é de ser acordado de manhã pelo som do amolador...

já procurei em todo o lado o som em formato digital mas não encontrei...


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