Quinta-feira, 25 de Outubro de 2007
"A Outra Margem", filme de Luís Filipe Rocha, é 'niiiito, como diria um dos protagonistas que é um adolescente com Síndrome de Down. Realmente, vi o filme e achei-o muito bonito, muito bem realizado e muito bem narrado.
A história debruça-se mais sobre dois personagens à margem da sociedade "normal". Ricardo é um travesti e o sobrinho Vasco um mongolóide, ambos com interpretações magníficas, das quais não destoam as dos restantes personagens que, no fundo, sofrem do mesmo mal, lembrando que não há só uma mas duas margens. O acto de marginalizar tem dois sentidos e reflecte-se em quem o pratica.
"A Outra Margem" é também um filme sobre Luísa, a noiva abandonada no altar incapaz de ultrapassar essa mágoa; sobre Maria, a mãe solteira que julgou ter um filho que ia depender de si para sempre mas, por ironia do destino, ela é que ficou dependente dele; sobre os irmãos separados cuja confiança um no outro jamais será abalada; sobre os pais que não perdoam a fuga dos filhos para a capital; sobre os filhos que acabam por ser "todas muito trágicas e um bocadinho mórbidas".

"A Outra Margem" fala de querer morrer, de querer viver e ainda da vontade de matar e mostra como todos os impulsos estão presentes na gente à espera do momento de tensão ou de calma para sobressaírem. Por isso, este filme é um filme cheio de emoções (realçadas por variações sobre uma melodia bem adequadas a cada situação) e de esperança - encarnada no Vasco que afinal parece ser a pessoa mais normal e feliz deste mundo. Porque será que nunca se ouviu dizer que uma pessoa com Síndrome de Down se matou ou matou alguém? Só eles sabem o segredo de viver sem angústia e com um amor tão honesto como intuitivo.
Também há um personagem espacial com um papel muito forte em "A Outra Margem", desde logo sugerido neste título: o rio, seja ele o rio Tejo ou o rio Tâmega ou qualquer outro rio real ou imaginário colado às vidas narradas, separando-as, juntando-as, assistindo às suas aventuras e infortúnios, amores e desgostos, amizades e contemplações. Está presente, mesmo quando não está, pressentindo-se do outro lado da janela fechada ou do outro lado da casa.

De resto, as vistas de Amarante e algumas pequenas aparições da planície alentejana conferem belos momentos visuais, como a última cena de ritual impecavelmente filmada e montada, com Ricardo a representar muito bem um acto de sublimação, a que Vasco assiste contemplativo como sempre dentro do carocha familiar. Um rito que acaba com o desencanto de Ricardo que o espectador viu no início desencadear um furacão sentimental de norte a sul de Portugal.
Por tudo isto e mais, esta é uma história muito bem contada, com princípio, meio e fim, e merece ser vista mesmo pelos mais cépticos em relação ao cinema português.

Website de "A Outra Margem": http://www.clapfilmes.pt/aoutramargem/


publicado por garçon às 14:03 | link do post | comentar | favorito

mais sobre mim
links
Junho 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
12
13

14
15
16
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

29
30


posts recentes

Génova

Escrito num WC público

Jacqueline Du Pré Encanto...

Polícia emancipada/o

MpI - Eu sou o 63º subscr...

Bossa, Elis, 1965, Ecolog...

O Enterro de Sidney Beche...

As palavras são como as.....

Foi Jazz - Sidney Bechet

É Jazz - Joel Xavier "Sar...

arquivos

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

tags

acesso ao casamento

bem disposto

clássicos

coisas de contar

conta como podia ser

contra-buplicidade

dança

desafio

desliguem os telemóveis.

direitos assertivos

direitos humanos

é o drama

flores

hobbies

igualdade

jazz

jazz foi

jazz fresquinho

mundo engraçado

mundo feio

o virar da página

objectivamente (fotografia)

olha pra mim

pessoas

poesia

ponto de escuta

prosa

quem sabe...

sweet sadness

todas as tags

blogs SAPO
subscrever feeds