Quarta-feira, 19 de Março de 2008
- Sinto que se quisesses já tinhas demonstrado interesse em me conhecer melhor.

- Demonstrei interesse em não te conhecer?

- O silêncio diz tudo.

- Por isso é que cada um ouve o que pensa...

De repente, este diálogo déjà vu un million de fois (sobre gajos que dizem não stressar mas cobram a sms que não recebem pouco tempo depois) iluminou-me um dito popular de uma forma que me espantou a mim mesmo e serve de reflexão filosófica sobre a(s) possibilidade(s) do silêncio. Existirá silêncio? Absoluto? Ou, pelo contrário, não é possível enquanto houver Voz? A Voz fala para fora e fala para dentro. A voz interior nunca se cala e, às vezes, até ensurdece.
Logo, o silêncio no ouvido é a Voz a sussurrar: Precisas de atenção.


publicado por garçon às 23:22 | link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito

"A Casa Sol, onde vivem crianças seropositivas, está sobrelotada. Num espaço para 11 vivem 21. A direcção vê-se obrigada a recusar novos meninos, carregando o peso de saber que, pelo menos, dois estavam a prostituir-se nas ruas da capital."
(...)
""Quando surge um caso complicado, puxamos uma cama para aqui outra para acolá, juntamos mais um colchão e acabamos por aceitar a criança", explica a directora da casa Inês Gonçalves. Mas, agora, a instituição atingiu o limite."
(...)

"Preocupado com a situação, o presidente do Instituto de Segurança Social (ISS) apresentou recentemente uma solução a Teresa d'Almeida: a cedência de um prédio na Lapa. Mas o imóvel tem ainda de ser libertado, (...), e depois terá de ser alvo de obras de requalificação, (...)."
(...)
"Na casa vivem órfãos infectados com VIH e meninos com familiares doentes sem capacidade para os educar. Apenas quatro estão em condições de adopção. Apesar de ter conhecimento que ali vivem muito mais meninos, o ISS só apoia financeiramente 11 deles."

in Global Notícias, 18-03-2008.


publicado por garçon às 22:53 | link do post | comentar | favorito

Terça-feira, 18 de Março de 2008

Não vou falar muito deste filme dos irmãos Ethan e Joel Coen por dois motivos. Primeiro, parece que tenho cada vez menos tempo disponível... Não sei o que faço ao tempo mas que ele passa, passa. A juntar a isso, tenho trabalhado imenso na loja e chegado a casa a rastejar. Em segundo, não gostei do filme; por isso, não me dá tanta vontade de discorrer sobre ele como se tivesse gostado.
Vou apenas salientar, de positivo, alguns bons momentos de suspense - quase sempre criados por trás de uma porta fechada, repararam?, cada uma com o seu número - e as interpretações de Tommy Lee Jones (no xerife prestes a reformar-se já desencantado com o mundo e a profissão) e de Josh Brolin (Llewelyn Moss, um homem a quem sai a "sorte grande" mas ao contrário). Está também muito bem do ponto de vista visual apresentando planos muito bonitos com uma qualidade de imagem impecável. Aliás, o filme vive muito mais do que se vê (e não se vê) do que daquilo que se ouve. São as sombras, as (in)expressões, as luzes dos faróis, os cadáveres que dizem algo.
Há certas falas bem metidas, por exemplo: "Are you going to shoot me?", pergunta o homenzinho apanhado desprevenido na carnificina. "That depends. Do you see me?", responde o assassino Anton Chigurh (Javier Bardem). Este é o diálogo que prefiro porque vai ao encontro de uma descrição feita mais atrás em que se diz que ninguém que veja o assassino sobrevive.
Com este elogio até parece que estou a apoiar a decisão da Academia de Hollywood mas desenganem-se. Para mim, poderia ser um bom filme se puxasse mais pelo sensacionalismo, por que não? Que ao menos fosse mais emocionante. Acabou por ser chato, com partes inexplicáveis e discursos abstractos, demasiado lento - quase parado às vezes - e vazio. Nem acho o desempenho de Bardem nada de extraordinário.
E o final? Que acontece ao dinheiro da mala? Parece-me que as únicas pessoas que ganham são os jovens que têm a sorte de se cruzar com o bom e o mau da fita quando estes se encontram em situações de desespero. Tanto um como o outro compram a salvação a miúdos que começam a habituar-se assim a uma cultura em que tudo tem um preço.
Nada disto me desiludiu contudo. Era algo de que já estava à espera. Este País Não É para Velhos tem bem gravada a marca dos Coen e eu nunca percebi o seu tão apreciado humor negro. Não acho piada. Já com Fargo aconteceu o mesmo.


publicado por garçon às 23:01 | link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito

Segunda-feira, 17 de Março de 2008
"Há lares apoiados pelo Estado que se recusam a aceitar idosos seropositivos. No ano passado, a Segurança Social recebeu três queixas."
(...)
"Num dos casos, adianta o responsável [Edmundo Martinho, presidente do Instituto da Segurança Social], terá havido "quebra do sigilo profissional" do médico que divulgou a situação clínica do idoso aos responsáveis do lar."
(...)
"De acordo com o Instituto Ricardo Jorge, estão notificadas no país 2411 pessoas seropositivas com mais de 55 anos."
(...)
"Se nos anos 80 raramente surgiam mais de dez novos casos de seropositivos por ano, na década de 90 já rondavam os cem e actualmente chegam a ultrapassar os 200. A evolução das terapêuticas trouxe um aumento da esperança de vida dos seropositivos mas trouxe também um problema: hoje existe uma camada da população envelhecida que está infectada e de pessoas que não sabem como lidar com estes doentes."
"Alegar que não há vaga ou pedir mais dinheiro são algumas das formas usadas para barrar a entrada a quem está infectado."
(...)
""Já não se ouvem justificações com base na infecção porque sabem que incorrem numa pena. Agora, as respostas são camufladas", explicou a presidente da Liga Portuguesa Contra a Sida, Eugénia Saraiva."
(...)
"(...) a liga recorre muitas vezes aos serviços da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, mesmo não sendo apologista da separação definida pela instituição nos finais da década de 80."
(...)
"A instituição criou espaços específicos para as vítimas do VIH, nomeadamente acolhimento residencial, apoio domiciliário e centro de dia."
(...)
"(...) a associação acaba por recorrer muitas vezes aos serviços da Misericórdia, um projecto criado numa altura em que "a discriminação era assumida" mas sempre na esperança de se tornar obsoleto, frisou Ana Campos reis, responsável da Misericórdia. No entanto, 19 anos volvidos, os comportamentos discriminatórios mantêm-se."
(...)

in Metro, 17-03-2008.


publicado por garçon às 21:58 | link do post | comentar | favorito

Sexta-feira, 14 de Março de 2008

Roma, Cidade Aberta é muita coisa ao mesmo tempo. É um filme de Roberto Rossellini de 1945. É a revelação de Anna Magnani como actriz. É uma obra-prima do cinema italiano do pós-guerra. É o primeiro filme da vaga neo-realista que se seguiu. É uma história contida mas profunda, por isso bela. Não é apenas uma história mas várias como quantas pessoas nos dá a conhecer. É uma mensagem de paz sem o dizer. É a realidade e para a realidade não são precisas palavras. Basta olhar.
O olhar sobre esta Roma é um olhar aberto, panorâmico como o dos romanos que se consideram livres até morrer mesmo que subjugados pelos alemães ocupantes. O olhar desta Roma choca com a perspectiva redutora dos que não fazem parte dela e estão só de passagem. Nesse olhar encontram-se (quase) todos os da cidade quer seja operário, engenheiro, padeiro, polícia ou padre (Aldo Fabrizi) quer seja comunista ou nacionalista. Todos se reflectem num mesmo espelho de alma que são os olhos de Pina (Anna Magnani).
Anna Magnani deu ao mundo uma das mortes mais pungentes que se viu no cinema (ver o último minuto do video em baixo). Com catorze planos breves, Rossellini conseguiu condensar toda a desgraça do mundo em Pina, uma mulher simples, fértil, temente a Deus e revoltada com Jesus que não vê o que se passa ali. A última imagem da sua morte é tal e qual a de Pietà de Michelangelo com a diferença de que mãe e filho desceram um nível esquematicamente se é que se pode dizer. É a mulher "santa" que jaz nos braços do "Senhor" trazendo no ventre a criança, chissà a salvação do mundo ou a última esperança numa cidade sitiada.
É curioso ver que as crianças de tenra idade que entram neste filme são as personagens mais promissoras no combate ao fascismo em termos de ânimo e vontade. Todos os adultos são figuras deprimidas tal como a economia e o estado do país. Daí poder inferir-se que a panorâmica final dos meninos caminhando em direcção a Roma (a cidade surgindo em fundo) simbolize a abertura de que reza o título incubada nas novas gerações, que são portadoras do desejo irreprimível de alargar os horizontes da Justiça e da Liberdade numa luta que não tem fim.



publicado por garçon às 22:49 | link do post | comentar | favorito


A Cinemateca Portuguesa está a apresentar este mês um ciclo dedicado ao centenário do nascimento de Anna Magnani. São estas as datas e horas das sessões:

Ter. [11] 21:30 Roma, Città Aperta de Roberto Rossellini (já passou)

Ter. [18] 19:00 Bellissima de Luchino Visconti (115 min / legendado em francês)

Ter. [25] 22:00 Mamma Roma de Pier Paolo Pasolini (110 min / legendado em francês)

Qui. [27] 19:00 La Carozza d'Oro / A Comédia e a Vida de Jean Renoir (100 min / legendado em português)

Se alguém quiser vir comigo ver um destes filmes, venha daí :)


publicado por garçon às 14:52 | link do post | comentar | favorito


Celebra-se este ano o centenário do nascimento da mais romana das actrizes, Anna Magnani (n. Alexandria, 7 de Março de 1908). Fruto de uma relação extraconjugal, Magnani foi educada por uma avó e em colégios de freiras e começou a trabalhar muito cedo como cantora em bares para pagar os estudos de arte dramática. Mais tarde, o seu sustento passou a ser o das comédias e revistas. Digamos que teve uma vida intermitente até ser descoberta a sua veia dramática - por oposição à comédia - em 1945, no papel de Pina em Roma Città Aperta do realizador Roberto Rossellini. Aqui começou a sua época de ouro na sétima arte trabalhando não só com cineastas italianos mas também com estrangeiros. Em 1955, dez anos depois, foi a primeira actriz estrangeira a ganhar o Oscar da Academia de Hollywood por um papel principal em A Rosa Tatuada, de Daniel Mann. A personagem que interpretou fora criada expressamente para ela por Tennessee Williams. Anna não recebeu o prémio na gala porque não acreditou na vitória e ficou em Roma, onde foi despertada do seu sono para lhe darem a notícia. Novamente nomeada em 1957, com o filme Wild Is the Wind de George Cukor, não bisou o troféu americano mas foi premiada no Festival de Berlim. Com o primeiro fracasso pós-consagração, no filme The Fugitive Kind (de Sidney Lumet em 1959), nunca mais voltou a ser glorificada. Senhora de uma personalidade forte e de uma expressividade apaixonante, Magnani esposa, mãe e mulher não teve uma vida fácil. Primeiro, o casamento foi anulado, depois viu-se confrontada com a poliomielite do filho e ainda foi rejeitada por Rossellini (com quem viveu um romance a seguir a Roma Cidade Aberta), a favor da actriz Ingrid Bergman. Apesar de tudo, trabalhou sempre, até morrer vítima de um cancro do pâncreas. Consta que o seu funeral foi um dos maiores jamais vistos na Cidade Eterna.


publicado por garçon às 13:35 | link do post | comentar | favorito

Patrick Watson é a minha mais recente descoberta entusiasmante no mundo da música. São canadianos e o seu último álbum, Close to Paradise, é um encanto que nos leva ao caminho da felicidade. É claro que eu me rendi logo ao piano. Em relação à voz, já se tinha feito notar nas belíssimas participações que integram Ma Fleur dos Cinematic Orchestra. Patrick Watson é uma banda apesar de ser também o nome do respectivo vocalista. Estiveram ontem na Aula Magna de Lisboa.



my sweet oh luscious life
you taste so sweet
when you are so free
my sweet oh luscious life you taste so sweet to me



By the cracks of the skin I climbed to the top
I climbed the tree to see the world
When the gusts came around to blow me down
I held on as tightly as you held onto me
I held on as tightly as you held onto me......


publicado por garçon às 12:14 | link do post | comentar | favorito

Quinta-feira, 13 de Março de 2008
Só por graça, quando a recepcionista do CAD me deu a rodela com o número treze, virei-me para ela e gracejei mostrando-lho: O treze é para me dar sorte? Vai dar, respondeu ela. Sabia lá ela! Acertou por acaso! Por acaso também era dia 13.


publicado por garçon às 18:02 | link do post | comentar | favorito

"Um em cada dez estudantes universitários de Coimbra acredita que a pílula anticoncepcional protege da infecção por VIH/sida",

in Metro, 13-03-2008.


publicado por garçon às 17:54 | link do post | comentar | favorito

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