Quinta-feira, 13 de Março de 2008
- Posso desabafar?
- Sim.
- Estou muito triste e só me apetece chorar.
- Porquê?
- Acabei de saber que um amigo meu tem SIDA.
- Como?
- Acabou de mo dizer. Ao telefone. Já está em fase de progressão da doença.
- E tu?
- Nunca o conheci pessoalmente. Tem 25 anos.
- Ele não fazia o teste regularmente?
- Não. Foram os médicos que descobriram quando ele já estava doente.
- E tu?
- Fiz o ano passado quando comprei casa por causa do seguro de vida.

...

Acabei de vir da Lapa onde fui fazer o teste de HIV. Há um ano que não fazia. Já tinha pensado nisso antes mas uma conversa como esta acelerou o processo. Felizmente está tudo bem. Ou pelo menos estava até há três meses atrás. A partir daí para a frente não está coberto pelo teste rápido. Foi a primeira vez que fiz o teste rápido, que fica pronto em meia hora, e acho que é melhor do que a recolha de sangue apesar de ter um período de janela maior. Ao menos não se anda três ou quatro dias a pensar no envelope e no que pode ter lá dentro.
A psicóloga primeiro aconselhou-me a só fazer o teste quando tivesse passado os três meses descobertos sobre a última ocasião de risco. Para não ver a minha deslocação dar em infrutífera, disse-lhe, com a maior lata que me foi possível juntar, que mais valia não ir por aí porque podia voltar a fazer o mesmo e só iria adiar o teste sucessivamente.
Há carências que nem o melhor chocolate do mundo, cigarros ou música suprimem.


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Domingo, 9 de Março de 2008

Quando Laranja Mecânica acabou de passar na sala esgotada da Cinemateca, soaram palmas. Eu, francamente, não me senti nada contagiado pelos fans deste clássico de culto de Stanley Kubrick. Na verdade, não gostei muito do filme. Contudo, percebo que é especial. Sobretudo se se pensar que foi realizado em 1971. Talvez eu tivesse batido palmas no dia da sua estreia. Mas ainda não estava neste mundo. O que já adianta muito sobre a originalidade da película.
Num mundo meio futurista meio conservador, violência e sexo são os passatempos preferidos dos adolescentes depois de beberem uma espécie de leite aditivado com estimulantes de agressividade. O líder, auto-nomeado Alexander the Large (Malcolm McDowell), acaba por ser traído pelo grupo e é preso. Na cadeia, voluntaria-se para fazer parte da experimentação de um novo método de reabilitação que consiste em ver filmes de violência e sexo horas seguidas sem poder pestanejar até criar aversão ao que vê e ouve (logo por azar também passou a sua música favorita).
Esta é, para mim, a parte mais interessante do filme. Remete para uma ideia que eu sempre tive que é a de que o cinema pode mudar mentalidades e atitudes numa sociedade agarrada a convenções. Creio que Kubrick quis dizer nas entrelinhas (neste caso, entre frames) que o cinema tem um poder imensurável e influencia o curso da vida individual e colectiva. O cinema muda o mundo.


Depois, segue-se uma sucessão de vinganças das quais Alex não consegue defender-se devido ao tratamento até que cai num jogo de interesses políticos sendo manipulado como um fantoche sem vida. O capelão da prisão tinha avisado Alex, quando este lhe pediu conselho sobre o programa governamental de erradicação da criminalidade, que a bondade devia ser uma escolha e quando um homem não pudesse escolher deixava de ser um homem.
Ao nível do argumento e da técnica, A Clockwork Orange é também um objecto de experimentação, o que o torna prestável a todo o tipo de análise possível. Mas não me convenceu a entrar nessa espiral de adoração.


publicado por garçon às 19:18 | link do post | comentar | ver comentários (3) | favorito


M - Matou! é o primeiro filme sonoro do alemão Fritz Lang. Estreou em 1931, três anos depois da introdução do som no cinema. No entanto, o filme não o usa ao desbarato para "vender" mais, pelo contrário, integra-o na trama como elemento central na execução e na descoberta de um criminoso.
A narrativa baseia-se na história verídica de um assassino de crianças em Dusseldorf. Com a subida do terror vivido pelos quatro milhões e meio de habitantes da cidade, polícias e marginais enveredam, cada grupo de maneira diferente, por uma procura intensiva de um mesmo homem. Este, primeiro, é apenas uma sombra e um assobio, o que joga a favor dos mendigos para o sucesso da captura. A polícia só VIA pistas.
É um filme que começa muito bem introduzindo logo o suspense necessário face a um fait-divers que oculta um homem tão ameaçador como misterioso. Depois, há uma longa incursão pelos trâmites da investigação policial bem como, alternadamente, pelos meios mobilizados nas quadrilhas com o mesmo objectivo: repor a normalidade. Durante esta exposição do processo, perde-se um bocado a emoção daquilo que interessa seguir, isto é, os passos do infanticida. Porém, vale a pena ficar atento até ao desenrolar da acção final, o da perseguição e julgamento à margem da lei (embora semelhante), sem dúvida o melhor de M.
João Bénard da Costa compara a justiça em M com a de Kafka em Processo. De facto, em ambos os casos, há uma acusação impulsiva movida por uma vontade acima de qualquer lei e julgada num ambiente claustrofóbico quer pelo próprio espaço em si quer pela opressão implacável dos acusadores. Tudo "fora" da realidade, incompreensível. A diferença, permita-me acrescentar, é que, se no Processo K é condenado sem sequer saber de que é acusado (assim como o leitor), em Matou! não há dúvidas sobre a culpa do réu. O que nunca se chega a descobrir é o que está por trás de tais actos, no mais insondável do ser humano para o que não há palavras e é despertado por uma melodia siflada. É nesse silêncio que a justiça encontra o seu maior obstáculo de sempre e o factor de erro ou incapacidade que tão má reputação lhe deixa aos olhos dos cidadãos sequiosos de segurança nas suas vidas.


Resta-me destacar o excelente trabalho de Peter Lorre no desempenho do homem acossado por si próprio, pela polícia e pela população. Vemos nos seus olhos o terror que o atormenta, terror que advém mais da tortura da sua alma do que da iminência de um castigo, de tal forma que somos levados quase sem darmos conta a considerá-lo uma vítima. Como? Acho que é porque todos reconhecemos que temos uma "voz" a querer comandar-nos e admitimos o difícil que é às vezes ignorá-la. É assim que o "advogado de defesa" o considera ilibado por não se lhe poder atribuir responsabilidade no acto do crime, visto que é doente, enquanto todos os outros o querem matar. Podia começar depois um excelente debate sobre a pena de morte mas o filme fica-se por aqui. Presta-se apenas a lançar o mote e alguns tópicos para uma discussão extra-cinematográfica.
A mãe de uma das meninas assassinadas encerra M dizendo que não é um julgamento legal que lhe traz a filha de volta. Cá para mim, termino esta posta frisando que outra morte também não.


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Sexta-feira, 7 de Março de 2008
Esta noite abri o Muralhas de Monção branco que o meu cunhado me deu "para uma ocasião especial". Só o vinho bastava para celebrar, Só. Mas não posso deixar de homenagear o espectacular Chop Suey do LIDL pronto em cinco minutos no microondas que bem acompanhou aquele néctar. Viva o LIDL finalmente perto de casa!


"You know, the day you open a '61 Cheval Blanc... that's the special occasion."
Maya to Miles Raymond in Sideways


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Quinta-feira, 6 de Março de 2008

Depois de Caramel vindo de uma libanesa, Persepolis junta-se para provar duas coisas que são uma só: O cinema no feminino e no Médio Oriente dá cartas! O filme de animação co-realizado pela iraniana Marjane Satrapi (na fotografia) baseado na sua própria BD autobiográfica é o desenho animado mais bonito que já vi em toda a minha vida dentro do género adulto, dramático, humorístico e negro. O co-autor desta obra-prima, merecedora do Oscar de melhor filme de animação, é Vincent Paronnaud.
Marji conta a sua história de vida ao mesmo tempo que ilustra a História do seu país dado que ela viu uma revolução quando era pequena (1978 - queda do Xá), sobreviveu a uma guerra (nos anos 80 contra o Iraque) mas foi em Viena d'Áustria - exilada não por causa da guerra mas pela contestatação ao Governo fundamentalista do Irão - que quase morreu devido ao amor, nefasto sentimento pequeno-burguês.
Adorei o grafismo a preto e branco (com cor apenas a distinguir os breves momentos do presente), que permite jogar com a claridade/escuridão muito bem, a caracterização humana dos inocentes e a desumana dos perseguidores (com buracos no lugar dos olhos, faces preenchidas de preto, todos iguais). O desenho em si, o traço, é mesmo muito bonito, e o movimento contínuo interligando uma cena à outra prende a atenção.


Ao ver o filme, apercebi-me de como somos (ocidentais) aparentemente tão abertos aos outros mas ao mesmo tempo tão distantes e todos fúteis se compararmos a nossa vida, que constantemente dramatizamos, com a vida realmente dramática das pessoas em situações extremas, nomeadamente pela falta de Liberdade, que é o que mais me choca e comove, a mim que a defendo com unhas e dentes se for preciso e sem ela não sei viver. Se eu estivesse no lugar de Marjane, seria como ela. SOU como ela porque, embora nascido num país livre, não me sinto bem e tenho ganas de atacar esta repressão mais subtil que é a da sociedade civil.
Como a própria Marjane esclarece, em declarações ao site New York Entertainment, "tu podes estar completamente preso enquanto tecnicamente livre, e completamente livre numa jaula. Se fores como os Mormons, como é que eles são livres? Não são, e vivem num país livre. Está tudo na tua cabeça. E eu acho que sou livre de espírito porque me estou a borrifar para o que as pessoas pensam e dizem. Aí está o princípio da tua liberdade." A avó dela bem diz no filme que toda a gente tem sempre opção...
Vão ver este filme numa sala de cinema, já que é possível. Persepolis não passará no Irão, garante a autora. Mas todos os iranianos o verão porque, salienta, mal se lhes diz que não podem fazer algo, é tudo o que passam a querer fazer. Tal como em relação ao álcool. É assim que funciona.


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Quarta-feira, 5 de Março de 2008
Os Homens Preferem as Louras, de Howard Hawks com Jane Russell e Marilyn Monroe nos principais papéis, é uma comédia musical de 1953 daquelas antigas que me fascinam como o circo fascina outras crianças (a mim o circo nunca me impressionou muito por aí além; sempre gostei mais de magia ;) .
Gostei muito do filme porque, como quase todos os musicais clássicos, tem um guião extraordinário com diálogos tão cómicos como inteligentes e músicas coreografadas de forma muito divertida. Estes momentos cantados pelos protagonistas, aos quais às vezes se juntam outros para fazer coro, em danças bem orquestradas, dinâmicas e interactivas, sempre me fazem sentir dentro de uma festa. Musicais assim são dedicados à alegria.
E a história é do mais simples que pode haver. Uma loira e uma morena, amigas e colegas em palco, vêm de origens modestas e ambicionam um homem rico e um amor verdadeiro, respectivamente. Durante um cruzeiro para a Europa, a morena Dorothy Shaw (Russell) fica incumbida pelo noivo da loira Lorelei Lee (Monroe) de a vigiar de modo a evitar que ela arraste a asa para outro homem rico. O resto são situações muito engraçadas que acontecem ao longo da viagem.
Gentlemen Prefer Blondes é um filme com imenso sex appeal. Se não fosse cómico, teria sido, de certeza, censurado. Classificado, no mínimo, como erótico. Parecendo não bastar que as miúdas fossem desmesuradamente sensuais enquanto vestidas, qualquer oportunidade de as mostrar com menos roupa foi bem aproveitada. O argumento também está cheio de conotações libidinosas e uma canção é capaz de pregar o amor ao mesmo tempo que exibe os corpos da equipa olímpica americana (ver video).



Destaco a cena hilariante, de rir como rirei sempre até quando for velho e o meu riso ridículo, de Lorelei presa numa escotilha e salva pelo menino esperto que lhe pôs um xaile ao pescoço quando apareceu o Senhor dos diamantes. Também é muito eficaz a forma de dar o mote logo no início, quando Lorelei diz que viu, enquanto apresentava o número de dança, uma caixa de jóia dentro do bolso do seu pretendente entre a plateia.
Outra coisa que apreciei, foi o facto de ser um filme despretensioso a nível moral, ou talvez não, pois, se por um lado, a loira tem uma paixão sincera por dinheiro sem enganar ninguém, por outro, ela própria (que até era mais inteligente do que se dizia) dá uma luvada de categoria aos falsos moralistas. Diz ela:
- Don't you know that a man being rich is like a girl being pretty? You wouldn't marry a girl just because she's pretty, but my goodness, doesn't it help?
(- Não vê que um homem rico é como uma mulher bonita? Não casaria com uma mulher só por ser bonita, mas pelo amor de Deus, não ajuda?)
Faz pensar um bocadinho. Afinal, uma comédia não tem apenas que entreter, tem?


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Terça-feira, 4 de Março de 2008
Como é bom recordar os bons e velhos tempos (porque os novos, ai!, que dor), relembro aquele festival mítico do Minho ao qual fui em 2003 com a minha mais que tudo Márcia. Ó pra nós (na fotografia em cima) tão felizes, os dois, praticamente sozinhos (juro que não havia mais ninguém) debaixo de uma chuva miudinha (a humidade era persistente) a conversar e a avacalhar sentados em frente ao palco secundaríssimo onde estava a tocar uma banda que, embora eu não conhecesse nem de ouvir falar e nem lhe estivesse a ligar muito naquele momento, ficou-me marcada pela forte apresentação (sem audiência, note-se) e pela música, que mais tarde ouvi com atenção em casa e, então aí, rendi-me.
Era os Trash Palace. Era uma vocalista a cantar de corpo e alma (literalmente - a moça estava só de lingerie sexy). E cantava como se o recinto à sua frente estivesse cheio. E parecia não ter frio nem saber o que isso era apesar de estar um gelo.
A música do álbum - Positions - (que adquiri depois) vai das faixas electrizantes até à mais melancólica melancolia. Consagra o sexo sem tabus com guitarradas eléctricas e electrónica à mistura ("Sex on the Beach") e faz hinos ao amor doce com melodias tão suaves como as de uma harpa ("Your Sweet Love"). Tem a vantagem de reunir vozes convidadas, como as de Brian Molko e Asia Argento, que fecham o alinhamento do disco com um surpreendente Je T'aime Moi Non Plus (de facto, este tema tem um potencial ilimitado para versões; recordo a excelente recriação, em inglês, por Cat Power e Karen Elson).

Como diria António Nobre - que eu ando a ler:
Não tendo presente, muito menos futuro,
Pois que é esse o meu triste fado,
Só me resta nesta Torre, no escuro,
Viver com os fantasmas do passado.



Your sweet love, your sweet love
Is holding me, is touching me
Your sweet love, your sweet love
Is watching me, is kissing me

Everytime I see you smile
It makes me hope, and I go wild
Holding, feeling, touching, dreaming

I lay down and think of you
Imagining the things we'll do
The things we'll do...



O princípio musical da próxima é lindo. Faz-me viajar pelo espaço, entre as estrelas ou só com a Lua Cheia...



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